Polifarmácia: os riscos de tomar muitos medicamentos e como proteger o paciente
Tomar muitos medicamentos faz mal? Entenda os riscos da polifarmácia, da interação medicamentosa e os cuidados que ajudam a proteger o paciente.

Hipertensão, diabetes, problemas cardíacos, dores crônicas. Quando uma mesma pessoa convive com múltiplas condições, algo comum com o passar do tempo, a “farmacinha” de casa — que já guarda analgésicos, antitérmicos, e tantos outros — cresce ainda mais.
Mas será que tomar muito medicamento faz mal, mesmo quando todos foram indicados por médicos? Como identificar se o familiar está exposto aos riscos da polifarmácia? O risco de eventos adversos aumenta progressivamente a partir de 4 a 5 medicamentos.
O que é considerado polifarmácia?
A polifarmácia é definida pelo uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos por dia, de forma contínua. Essa contagem não inclui apenas os remédios controlados prescritos por diferentes especialistas: também entram na soma remédios para gripe, dor, azia, alergias, além de xaropes, colírios, pomadas e suplementos de qualquer origem, sejam eles sintéticos ou naturais (fitoterápicos).
Ao observar diversos estudos acerca do tema, — incluindo uma revisão sistemática publicada no European Geriatric Medicine —, conclui-se que essa realidade atinge entre 30% e 50% dos idosos no mundo. O número é ainda maior quando olhamos para pacientes hospitalizados, em que a taxa pode ultrapassar 80%.
Acompanhar de perto a indicação dos medicamentos é um passo essencial para garantir que o paciente fique longe de complicações, pois o problema está quando a polifarmácia é inapropriada. Há casos que pelas multimorbidades, o paciente entrará em polifarmácia, mas esta deve ser apropriada com revisões sistemáticas da prescrição e o cuidado centrado no paciente.
Interação medicamentosa: o perigo é ainda maior em idosos?
Para gerenciar uma longa lista de remédios, é preciso entender que cada nova substância adicionada pode anular, alterar ou potencializar o efeito de outra. É exatamente isso que caracteriza a interação medicamentosa: uma mistura que eleva consideravelmente o risco de reações indesejadas no organismo.
Segundo o geriatra Edgar Nunes de Moraes, coordenador do Núcleo de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a interação medicamentosa exige cuidado redobrado com os idosos que tratam várias doenças ao mesmo tempo. Assim, um medicamento que funciona perfeitamente para controlar a pressão alta de um adulto jovem, por exemplo, pode não ser adequado para o contexto geral de um idoso mais frágil.
Na rotina, as consequências dessas interações e do uso de remédios inapropriados costumam passar despercebidas. É muito comum que familiares e cuidadores associem quedas, tonturas ou esquecimentos ao “envelhecimento natural” ou ao avanço de alguma doença, quando, na verdade, o culpado é o excesso de medicamentos vindos de uma cascata prescritiva… um medicamento é prescrito para tratar uma doença crônica, o paciente tem um evento adverso e um novo medicamento e prescrito e uma nova doença aparece.
O que o excesso de medicamentos pode causar no dia a dia?
A polifarmácia foi associada pelas pesquisas a maior risco de:
- quedas por tonturas e desequilíbrio;
- sonolência excessiva;
- perda de apetite e de peso;
- perda de autonomia;
- comprometimento cognitivo;
- confusão mental;
- hospitalização;
- mortalidade.
Cada medicamento adicional aumenta em 3% o risco de mortalidade em idosos maiores que 85 anos.
A automedicação aumenta os riscos da interação medicamentosa?
Segundo o geriatra, remédios para dor, gripe, inflamação, azia, alergias e outros são frequentemente utilizados sem que o médico saiba.
“Muitas vezes o paciente está fazendo automedicação, que é perigosíssima. “Se um medicamento prescrito por um profissional já pode representar um risco, imagine a automedicação”, diz.
O mesmo raciocínio vale para suplementos, vitaminas e produtos naturais. Mesmo as opções fitoterápicas possuem princípios ativos que reagem com os remédios de uso contínuo, podendo cortar o efeito do tratamento principal ou causar uma sobrecarga no organismo.
A combinação dessas substâncias com medicações de uso contínuo pode aumentar o risco de sangramentos, alterar a pressão arterial, lesionar os rins e trazer outras complicações que poderiam ser evitadas com orientação profissional.
Como reduzir os riscos da polifarmácia?
Mesmo diante dos riscos, parar tratamentos por conta própria ou desconfiar de sua eficácia não é o caminho: os medicamentos são fundamentais para a cura ou o controle de doenças.
“A diferença entre um remédio e um veneno é a dose. Então tem que ter muito cuidado”, reforça.
Portanto, uma lista com todos os medicamentos do paciente, incluindo aqueles sem receita e “naturais”, deve ser levada ao médico para que ele possa avaliar:
- se todos os medicamentos continuam necessários;
- se existem medicamentos duplicados;
- se há risco de interação medicamentosa;
- se as doses permanecem adequadas;
- se algum tratamento pode ser simplificado.
Em alguns casos, o médico pode recomendar a retirada gradual de medicamentos que já não trazem benefícios ou que oferecem mais riscos do que vantagens.
Esse processo é conhecido como desprescrição e deve ser realizado sempre com acompanhamento profissional.
Como acontece a gestão dos medicamentos e a prevenção dos problemas relacionados à polifarmácia no Home Care?
Uma das vantagens da Atenção Domiciliar é que a equipe de saúde consegue avaliar o paciente no ambiente onde ele realmente vive.
“É na casa dele que eu vou realmente ver o que ele está usando. A primeira coisa que a gente faz quando vai avaliar um paciente em casa é pegar a farmacinha que ele tem”, conta.
Na Home Doctor, médicos, enfermeiros e farmacêuticos trabalham de forma integrada para revisar a polifarmácia inapropriada, organizar as tomadas diárias, identificar interações medicamentosas e orientar familiares e cuidadores.
Identificar as indicações, avaliar riscos e benefícios , decidir o que manter, ajustar ou suspender, implementar de forma segura e gradual e monitorar são passos para a desprescrição segura realizada na Home Doctor.
Esse acompanhamento é especialmente importante para idosos e pacientes com doenças crônicas, pois torna o tratamento mais seguro e adequado às necessidades de cada pessoa.


